
Voce tem fome de que? Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Me dei conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta. Meu armário e geladeira até tem algumas comidinhas, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar? Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo. Mas como anda a dieta da alma?
Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra dentro da casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira neste processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.
Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas nada de descuido. Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.
Escrito por Marleide às 23h03
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Quando tenho oportunidade eu vejo na GNT, o Saia Justa, por acaso, assisti o dia em que a Camila Morgado se despedia do programa. Não me lembro quem, mas alguém citou a seguinte frase: "A proximidade do fim dá o senso da raridade". Vale para o amor, vale para a vida. A proximidade do fim é algo que comove. Nesse dia vi a jovem apresentadora de televisão debulhar-se em lágrimas, ao vivo, por estar gravando o último programa pela emissora que trabalhava, já havia assinado contrato com outra. Nenhum arrependimento, nenhuma armação de marketing. Era o senso de raridade que se manifestando frente a câmera, a raridade de ter feito amigos, de ter obtido sucesso, de ter passado por algo verdadeiramente bom.
O senso da raridade sempre nos intercepta na proximidade de uma despedida. Costumamos compreender as coisas tarde demais. Passamos muito tempo ausentes de nós mesmos, anestesiados por um ritmo de vida que parece imutável, até que muda. É no amor que mais testamos essa verdade: na iminência da separação, nosso músculo cardíaco convoca às pressas todas as emoções dispersadas e recobra seus batimentos, enquanto manda avisos urgentes ao cérebro: não desista, não desista, não desista. É da raridade de estar vivo, da duração eterna de grandes amores, da duração das amizades, da duração de nossas convicções e de nossas esperanças, de tudo o que é longo o suficiente para permitir construções e morada, longo o suficiente para ensinar que as advertências da razão sempre serão menos raras do que o impulso dos instintos.
Escrito por Marleide às 23h28
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O Rio de Janeiro é uma cidade surpreendente, sempre que tenho oportunidade gosto de caminhar pelas ruas para conhecer melhor esse lugar tão cheio de energia. Outro dia me deparei com uma vitrine despretensiosa de uma Livraria| Sebo www.betadeaquarius.com.br/, não resisti, entrei e logo sai com uma aquisição um tanto quanto curiosa, encontrei um livro antigo, um pouco surrado pelos antigos donos, chamado Fogo nas Entranhas, por Pedro Almodovar, foi escrito por ele em 1981, quando estava encerrando sua carreira de diretor de filmes pornôs. É uma novelinha rápida. Tão rápida quanto absurda. Não faz o menor sentido. Rápida, absurda, sem sentido... Almodovar é puro, é encantador, é um alento nesse mundo onde tudo tem que ser ordenado, catalogado, explicado. Teorizar sobre Almodovar é um desperdício de tempo. Ele está além dos rótulos de brega ou chique, comédia ou drama, arte ou embromação. Sentimentos não têm estilo definido. São ilógicos por natureza.
A gente procura o sentido da vida em tudo: nos livros, na religião, nos índices da Nasdaq. A gente quer um porquê. Almodovar vem e diz: não tem porquê. Ou melhor, não tem só um. A vida é uma salada de emoções, piadas, lágrimas, sexo, pileques, encontros em elevadores, desencontros em aeroportos. A vida não é tão arrumadinha quanto a gente gostaria: é um caleidoscópio. Colorida. Engraçada. Trágica. Inquieta. Indecente. A vida é latina. O livro, em si, não é lá grande coisa. Uma bobajada, pra falar a verdade. Mas não é a história que interessa. É o exercício de criação, a movimentação dos personagens, a recusa em estabelecer parâmetros de comportamento. À medida que a leitura avança, a gente vai ficando cada vez mais liberado pra rir e pra admitir que as coisas podem ter coerência, mesmo prescindindo de uma interpretação. Não é preciso dominar teoria para se entusiasmar, não é preciso entender com o cérebro, pode-se - e deve-se - entender com o espírito. Marco, sei que voce vai ficar bravo e me cobrar para colocar as resenhas no .skoob ....estou devendo....Valeu amigo!
Escrito por Marleide às 22h22
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Sequencia de ERROS Domingo de chuva, de bobeira peguei um DVD antigo na gaveta e resolvi matar o tempo. Depois de uma semana agitada é impressionante como as percepções estão à flor da pele. Se você anda ligeiramente desanimado, com uma visão meio ácida da vida, melhor não assistir a Magnólia. Agora, se você gosta de remexer em velhas feridas, se acha necessário fazer o inventário dos próprios erros, então ponha Magnólia nos seus planos. São três horas de deprê, três horas sentado assistindo a um filme que, quando acaba, dá vontade de continuar sentado mais uns 10 minutos, fazendo a digestão. Magnólia trata sobre arrependimento e perdão. Relações familiares que se deterioram com o tempo, que não correspondem às expectativas, que geram conseqüências radicais. Como quase nada fica impune nessa vida, mais cedo ou mais tarde chega a hora da verdade, a hora de admitir os tropeços cometidos e de tentar consertá-los, mesmo que o tempo esteja esgotado É como tentar marcar um gol na prorrogação. O filme é o retrato desta era individualista, em que as pessoas estão tão auto concentradas que não sabem mais o que fazer com o amor que têm dentro, não sabem a quem distribuí-lo, acabam oferecendo-o para o primeiro que cruzar frente. Uma era em que o que importa é ser um vencedor, ter superpoderes e jamais admitir que se esta errado. O ego sustenta a farsa. Cocaína e anfetamina também. Julgar os outros é bem mais fácil que julgar a si mesmo. Nosso mea-culpa é adiado até que a morte seja iminente e não haja mais tempo para novos erros, apenas para um único acerto: pedir perdão. É o momento de ser humildade, de revelar nossas fraquezas e desculpar as dos outros. De convocar a familia, e não o padre, para a extrema-unção. De vez em quando o filme escorrega na simplificação: parece que o que todos precisam saber e se foram traídos um dia. Não e esta a resposta que precisamos para aliviar a aflição de uma vida. As imprudências da raça humana, as verdadeiramente densas, passam longe da cama. É na infância que se inicia o estrago. É lá que vamos nos sentir amados ou rejeitados, carregando os efeitos disso pela vida afora. E bem mais para trás que todos devem olhar se quiserem entender suas atitudes. Adultos são crianças que não tiveram seus medos acalmados, que foram cobradas em excesso, que foram feias, dentuças, gordas ou tímidas demais, que foram molestadas, tratadas com um mimo despropositado ou uma indiferença brutal. Adultos são crianças que tiveram razão e não foram escutadas, que fizeram bobagens e não foram advertidas, que realizaram os sonhos dos outros em detrimento dos seus.
Escrito por Marleide às 21h39
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O que seriam dos grandes momentos de satisfação se não existissem os menores para a gente reconhecer a diferença entre eles? Perdemos tanto tempo esperando pelos grandes momentos que deixamos de aproveitar a beleza dos menores. Os mais corriqueiros, que geralmente acontecem enquanto estamos preocupados demais com todo o resto. Com sorte, esses breves instantes de felicidade discreta serão relembrados mais tarde com certa nostalgia. E somente então, vividos em sua plenitude por nós. Shakespeare, há séculos atrás, afirmava que as pessoas sofriam demasiado pelo pouco que os faltava e alegravam-se quase nada pelo muito que tinham. Parece-me que sua crença não envelheceu com o passar dos anos. Poucas coisas talvez sejam tão poderosas nessa vida, como os pequenos prazeres que passam despercebidos na correria do dia-a-dia. Minha lista particular é longa. Começa com a simples sensação de sair na rua com os cabelos ainda molhados do banho e sentir o frescor das gotinhas d’água evaporando da pele e termina com um sorriso espontâneo ao olhar para trás enquanto se fecha o portão de casa e se nota que a grama do jardim de onde se mora está linda depois de tanto tempo seca. Mas, vai saber? Cada um tem seus pequenos momentos únicos. Pode ser aquele primeiro gole de chopp gelado que você toma depois do trabalho na sexta-feira à tarde, aquele beijo despretensioso que jamais imaginou ser o último, o olhar de um desconhecido que te despiu em plena calçada naquele dia em que acordou se achando a mais feia das mulheres ou mesmo o pecado cometido ao se entregar sem culpa às tentações dos novos sabores dos sorvetes Haagen Dazs, pequenas tentações que valem a total entrega. Os grandes momentos são raros para alguns e podem até inexistir para outros. Portanto, sejam lá quais forem os pequenos momentos de prazer de sua vida, reconheça-os! Não permita que a pressa os desperdice. Faça-os valer... Imensamente. A somatória de todos eles, essa sim, certamente será sempre grandiosa.
Escrito por Marleide às 21h06
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Deixar rolar...? É impressionante como passamos a vida tentando conter a tendência para a desordem. Se ficássemos passivos diante da vida, sem mexer um dedo para nada, um belo dia acordaríamos falidos, com a energia elétrica cortada e um monte de gente magoada a nossa volta: "O que cada um de nós tenta fazer, cada um à sua maneira, é tentar conter o caos". Diante dos últimos fatos da semana conclui que; passamos a vida tentando organizar a bagunça. Trabalhamos para ter dinheiro, respeitamos as leis, usamos o telefone para manter laços com a família e procuramos amar uma única pessoa para sossegar as aflições do coração, sempre tão inquieto. E mesmo fazendo tudo certo, e mesmo correndo contra o relógio e contribuindo para o bem-estar geral, às vezes dá tudo errado. É quando surge alguém não sei de onde, percebe o nosso stress e dá aquele conselho-curinga que serve para todas as ocasiões: deixa rolar, não invista tantas energias nesse assunto Sempre que eu deixei rolar, não aconteceu nada. Nada de positivo ou negativo. Nada. De vez em quando eu até deixo rolar, mas só para obter um breve momento de descanso em que parece que saí de férias da vida. É uma auto-hipnose: estou dormindo, não estou aqui, não estou vendo coisa alguma. Quando a desordem e o caos voltam a ameaçar, eu conto um, dois, três, estalo os dedos e a engrenagem volta a funcionar de novo. Deixar rolar é um conselho que não consigo seguir por muito tempo. Tenho esta mania estúpida de querer participar de tudo o que me acontece. Se eu me dei bem, a responsabilidade é minha, e se me dei mal, é minha também. Não entrego nada a Deus. Não uso nem serviço de motoboy. Eu mesma cobro, eu mesma pago. Delego pouco, e apenas pra gente em quem confio às cegas. Nunca pra este tal de destino, que não conheço. Só entro em estado de passividade quando não depende mais de mim. E só deixo rolar aquilo que não me interessa mais. O problema é que tudo me interessa.
Escrito por Marleide às 20h05
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 "Life is like a box of chocolates... you never know what you're gonna get". Realmente, a gente nunca sabe o que a vida nos reserva, mas que o receio do desconhecido nunca sirva de empecilho para que se desista do que se deseja. Seja lá o que for que você busca, torço para que você encontre o que procura.
Escrito por Marleide às 21h50
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capacidade de esquecer A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da terra, sob as nossas faces. Amar é mais magnânimo, mas não tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la. A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer da tristeza perante a morte dela que nos torna aptos para nos encantarmos novamente dali a pouco. Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me aniquilariam se terminassem. Às vezes cruzo na rua com fantasmas que já foram muito vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente. Algumas pessoas são apagadas da memória como filmes desimportantes. Apenas esmaecem até desaparecer. Mas é mesmo impossível nos lembrar de todos os que passaram por nós: gente demais, espaço de menos. Da mesma forma que minha história está repleta de coadjuvantes e figurantes que, irrefletidamente, se auto-proclamavam protagonistas, eu devo ser a personagem cômica da história de alguém. Ninguém se esquiva da experiência constrangedora de bancar o bobo da corte no reino de outro. Mas esse eco de significado não vem sem um certo pesar. É dolorido ser lembrado: não é fácil encarar que não somos insubstituíveis e que nossa saída displicente abre uma possibilidade de entrada tão desejada por outros. Mas só nos desenroscamos e seguimos nosso rumo natural, em frente, quando eliminamos alguns seres que, caso contrário, nos prenderiam em suas recordações. “Há pessoas que ficam doendo com a lembrança de outra pessoa, entra ano, sai ano, virando e revirando o caleidoscópio, olhando como caem e se dispõe as cores e os cristais do sofrimento” (Paulo Mendes Campos). O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotado com os erros cometidos e alegrias jamais revividas. Para ser feliz é necessário pouca coisa além se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas. É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repetir como um mantra: absolutamente nada é pra sempre, nem sentimentos que parecem ser. Nunca mais haverá amor como aquele? Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse. Todo mundo passa. E é bom que seja assim.
Escrito por Marleide às 21h17
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Períodos de recuo são essenciais, nos forçam a enxergar a situação sob outro prisma, com mais frieza e, por isso mesmo, isenta dos colossais erros de julgamento que a intensidade e a bile nos levam a cometer. “O lugar mais escuro é sempre debaixo da lâmpada . O mais notável em nos distanciarmos vez por outra do que nos importa, nos confunde, é sentir o que esse redimensionamento causa. E seja o que for, a retomada ou nos faz enxergar a placa de “rua sem saída” que teimávamos não ver ou, feito polimento em prata, devolve o brilho ao que o tempo havia apagado. Talvez por isso alguns casais só se entendam depois de uma separação: a dor, a sensação de ficar sem centro gravitacional, não ter mais ali ao lado quem se ama, pode provocar verdadeiros milagres na dinâmica de uma vida em comum (e na vida solo). Mas não podemos contar com milagres, precisamos da razão. O problema é que nosso senso de urgencia tende a sub-avaliar o que se tem ou (talvez seja pior), exagerar na importância e, se quisermos ser felizes, é inútil proclamar independência emocional ou tornar-se escravo das paixões. Qualquer extremismo nos isola—e, curiosamente, é só dando um pequeno mergulho na solidão que compreendemos o valor do que nos rodeia e mora dentro de nós. Depois de sofrer feito o cão por encarar tudo na base do oito ou oitenta, fiz um pacto comigo mesma: jamais levaria coisa alguma a ferro e fogo porque nada importa tanto. Absolutamente nada é imprescindível. Nem ninguém. Esse não é um discurso de auto-suficiência, pelo contrário, é uma reflexão de alguém que aprendeu na porrada (ou melhor, no choro) que só relativizando, tornando a existência e o coração mais leves, é que se pode ser feliz e, então, ser feliz com alguém.. Cuide de quem ama mas não faça disso o objetivo da sua vida porque ficará, inevitavelmente, frustrado quando não tiver deles o que deu pra eles. Ou não tiver deles o que você ACHA que eles deveriam devolver. E será bem feito: você fez o que quis, porque quis, então não venha reclamar o troféu. Não existe prêmio para quem doa amor. Ainda bem. Por isso, distanciar-se deveria ser uma tarefa cotidiana: evitaria que fôssemos sugados pelo redemoinho que sempre começa logo ali nos nossos pés, mas estamos ocupados demais pra ver. Evitaria que exercêssemos de forma tão eficaz, e perigosamente despercebida, nossos piores defeitos. Quando algo começar a te enlouquecer, enfernizar ou surtar, use a técnica dos grandes admiradores de arte: recue diante da tela, mude de ângulo em relação a ela, observe as cores, os traços e os detalhes que, na correria, sempre passam despercebidos. Então notará que ela é muito mais do que aquele ponto preto que ficava, insistente, diante dos seus olhos. Ser feliz não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva.
Escrito por Marleide às 21h14
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Dentro do abraço... A parte do corpo masculino que mais me agrada anda meio desprezada. É um canto ao qual só quem ama tem acesso e apenas quem não tem medo de sua própria vulnerabilidade usa. Visível para qualquer um, mas que quase ninguém nota. Sexo não é a entrega máxima entre duas pessoas – se fosse, prostituição seria amor. Intimidade não são dois corpos nus e cansados depois do sexo, não é compartir dívidas ou nomes na conta-corrente. Tampouco usar a mesma escova de dentes. Não é traçar planos a longo prazo porque eles, a qualquer momento, podem ser levados embora como árvores num vendaval (tão fortes na teoria, tão frágeis na prática); não é saber de cor as respostas do outro. Isso é vida a dois, que pode (infelizmente) ser vivida por semidesconhecidos. A maior intimidade que um casal pode conquistar não requer nudez, gemidos ou penumbra. Ela fica disponível, esperando ser requisitada. Não me apaixonei muito na vida apesar de as possibilidades de paixão terem sido fartas. Foi só depois de terminados o ardor e o desespero atrelados a esse sentimento que compreendi o porquê de ter me perdido em outra pessoa em tão poucas ocasiões: só eles, esses poucos amores, me deram o que sempre precisei, perceberam que minha maior necessidade não tem vínculo algum com brilhantes ou demonstrações de saber. Só eles notaram ser essencial deixar essa pequena área sempre à disposição – quando os momentos difíceis me alcançavam (ou os muito bons), era sempre no resguardo desse canto que eu repousava minha aparente força, chorava de alegria, abandonava os medos. A maior entrega se faz quando me aninho mansamente no espaço macio entre o pescoço e o peito dele e apenas fico, sem necessidade de palavras. Intimidade é o momento no qual silencio a mente e o mundo e repouso a cabeça na parte mais fascinante do corpo masculino: o ombro do homem que amo.
Escrito por Marleide às 18h29
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Ironia Comunicação não é o que a gente diz, mas sim o que os outros entendem. Ou seja, se voce disse alguma coisa que o outro não entendeu, ou entendeu errado, a comunicação foi feita igual, só que não saiu como voce queria. Isso acontece quando a gente emprega a ironia, coisa que de vez em quando eu faço. Ironia é dizer exatamente ao contrario daquilo que esta pensando ou sentindo, geralmente com uma intenção sarcástica. Ironizar é depreciar com humor. No entanto ao usar a ironia, a pessoa convida a outra a pensar, fazendo com que o outro se sinta co-autor daquele pensamento pelo simples fato de ter compreendido seu significado. A ironia enlaça, a ironia perturba, a ironia tira um sarro de forma sutil. A ironia comunica mais que a verdade nua e crua. Mas só funciona quando os outros entendem...
Escrito por Marleide às 00h48
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A casa da gente é uma metáfora da nossa vida, é a representação exata e fiel do nosso mundo interior. Li essa frase outro dia e achei perfeito. Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Da porta da rua pra dentro, pouco importa a quantidade de metros quadrados e, sim, a maneira como você os ocupa. Se é uma casa colorida ou monocromática. Se tem objetos obtidos com afeto ou se foi tudo escolhido por um decorador profissional. Se há fotos das pessoas que amamos espalhadas por porta-retratos ou se há paredes nuas. Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há muitas coisas por consertar. Isso também é estilo de vida. Luz direta ou indireta? Tudo combinandinho ou uma esquizofrenia saudável na junção das coisas? Tudo de grife? É um jogo lúdico tentar descobrir o quanto há de granito e o quanto há de madeira na nossa personalidade. Qual o grau de importância das plantas no nosso habitat, que nota daríamos para o quesito vista panorâmica? No item praticidade, a casa revela o quanto somos apegados ou não, o quanto podemos ser capazes de juntas coisas sem utilidades, o mesmo fazemos com nossos sentimentos. Há casas em que tudo o que é aparente está em ordem, mas reina a confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto. Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas pequenas onde cabem toda a família e os amigos, há casas com lareira que se mantêm frias. Há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida. Há casas com escadas, casas com desníveis, casas irregulares. Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes
Escrito por Marleide às 00h29
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Sobre Casamento Outro dia, alguém me fez uma pergunta com ar de indignação: Porque você não se casou ainda? Sensação, estranha no ninho, como que se estivesse obrigada a me explicar. Para essa pergunta tenho diversas respostas, mas dizer diretamente não iria me tornar uma pessoa mais sociável. Outro dia li um texto e um parágrafo despertou a atenção, onde traduzia o casamento como esconderijo, o esconderijo mais aconchegante é aquele em que conseguimos esquecer do que estamos nos escondendo. Mais: é aquele em que até esquecemos que estamos escondidos. E conclui: “Formamos casais porque é impossível se esconder sozinho”. Eu nunca havia pensado nisso. Uma pessoa avulsa é uma pessoa com uma solidão escancarada, é uma pessoa que necessita fazer contatos e explicar quem é, o que faz, do que gosta. Uma pessoa sozinha é mais visada, está exposta, julgam que ela tem mais tempo, está mais disponível, uma pessoa sozinha não tem onde se esconder. Já duas pessoas juntas escondem-se das fantasias e do julgamento alheio, se escondem de sua própria vulnerabilidade e dos seus próprios segredos, duas pessoas juntas protegem-se oficialmente, mesmo sem ter a consciência de que sua união também é isso, um esconderijo. A sociedade costuma cobrar relações amorosas daqueles que escolheram viver sozinhos, ou que estão sozinhos por contingência do destino. Os solitários, os donos da própria vida são tratados como se estivessem à margem, mas são os casados os verdadeiros excluídos, por que uma vez cumpridores de uma expectativa social, perdem seu potencial para surpreender, não chamam mais a atenção, passam a ser apenas fazedores de filhos e de dívidas, consumidores de imóveis de três dormitórios e carros utilitários, viram alvo apenas de corretoras de seguro e dos agentes de viagem. Dentro de um casamento, julga-se que há duas pessoas realizadas, completamente a salvo da angústia existencial, da carência afetiva, dos traumas de infância, da insanidade, do vício e dos ímpetos – imagine, ímpetos: casais jamais ousariam fazer algo sem pensar, sem conversar muitas vezes antes, durante e depois do jantar. A solidão que sempre parece nos proteger, na verdade nos coloca no centro das atenções, permite que coloquem o dedo nas nossas feridas. Já o casamento nos tira da prateleira, nos resguarda, nos esconde tão bem e tão sem alarde que a gente nem percebe que está escondido. Que ironia: o casamento é que é tudo de bom. Não são as perguntas que não merecem respostas sinceras, mas sim, algumas pessoas.
Escrito por Marleide às 23h38
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Comemorar sempre? Outro dia eu li um texto de uma tal madame Lilly Bollinger, rainha da região de Champagne, na França, em que ela revelava quais eram, na sua opinião, os momentos em que se tornava imprescindível abrir uma garrafa. Vale a pena reproduzir: “Eu só abro quando estou feliz e quando estou triste. Às vezes, bebo quando estou sozinha. Quando estou acompanhada, considero obrigatório. Eu me distraio com champanhe quando estou sem fome, e bebo quando estou com fome. Fora isso, nem toco no champanhe, a não ser que esteja com sede”. Adorei este texto. Antes de ser uma apologia ao alcoolismo, é uma lição de savoir-vivre, para ficarmos no idioma da senhora citada. É claro que não dá pra beber champanhe como se fosse água mineral, mas dá para a gente beber água mineral como se fosse champanhe. É só uma questão de estado de espírito. Por que comemorar apenas as datas festivas? Certa vez, José Saramago escreveu que não existe dia festivo, nós é que o tornamos festivo por fazê-lo diferente. Para mim, todas as segundas-feiras são festivas pelo simples fato de eu ter sobrevivido ao domingo, começar um livro novo, ver um filme diferente, seu projeto vingou, seu pagamento saiu, seu telefone tocou, sua espinha sumiu, seu amigo chegou: garçom, desça duas dentro de um balde de gelo, s'il vous plait. Se não puder ser champanhe, que seja água, cerveja, vinho, qualquer coisa que dê a a sensação de estar comemorando o fato de estar vivo. Mesmo os dias de ressaca merecem um brinde silencioso, pois sofrer também é sintoma de que o coração está batendo. Data marcada para festejar é um rito, não pode bloquear nossa criatividade. Brinde no reveillon, mas também nos outros dias do ano. Brinde para uma nova fase da vida, brinde para alguém que acabou de se tornar Papai. Brinde a dois ou sozinho pensando em alguém distante. Um brinde por ter motivos para comemorar, mesmo que não seja diretamente seus motivos, Sante!
Escrito por Marleide às 22h48
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Sexo sem Compromisso
Em filmes recentes, são as mulheres que fazem questão de ter apenas ‘amigos com benefícios’ NOS ÚLTIMOS anos, os filmes americanos vêm criando novas palavras e frases para classificar amizades e sexo sem compromisso. Esses neologismos talvez reflitam as mudanças nas atitudes diante dessas relações ou a criatividade verbal? É possível, também, que não reflitam nada. A expressão “Best Friends Forever” (melhores amigos para sempre), usada pela primeira vez em 2005, no seriado animado “South Park”, indica amizade eterna, embora existam poucas desse tipo. Chamar alguém de “meu novo BFF” é quase uma garantia de rompimento rápido. “Bromance” -fusão das palavras “brothers” e “romance-” indica o amor masculino não sexual. Críticos de cinema empregaram esse neologismo para descrever o vínculo entre um rei inglês gago e seu terapeuta de fala, em “O Discurso do Rei”.
“Friends With Benefits” (amigos com benefícios) é sexo sem compromisso ou “amizade colorida”. Popularizado pelo filme , FWB veio substituir o vulgar “fuck buddy” (companheiro de trepada), lançado em “Sex and the City”. Em filmes recentes de Hollywood, as mulheres fazem questão de não ter mais que FWB. Em “Amor sem Escalas” e “500 Dias com Ela”, e “Amor e Outras Drogas”, as protagonistas exigem sexo sem compromisso, embora os caras com quem contracenam queiram monogamia. Nesses filmes, as protagonistas percebem que uma relação comprometida é melhor que sexo casual, que a fidelidade traz mais benefícios que FWB. Será que esses filmes mostram que, apesar dos neologismos criados para descrever namoros não convencionais, as pessoass ainda se apegam à convenção? Ou apenas mostram o que Hollywood tem de mais convencional -a recusa em abrir mão de uma fórmula de sucesso, o final feliz?
Escrito por Marleide às 23h24
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